Maio 28, 2025

Um amor com data e local de nascimento.
Dublin, 16 de junho de 1904.
Foi nessa quinta-feira trivial que James Joyce foi ter com Nora Barnacle seu primeiro encontro.
Esse acontecimento corrobora uma imagem inaugural ocorrida alguns dias antes, quando Joyce experimenta a repercussão de uma cena que o sideraria para sempre. Vê através de uma janela (num hotel) uma mão feminina puxando a corda de descarga de um vaso sanitário. Era Nora, que nessa época, trabalhava como camareira no hotel onde Joyce se hospedara. Ao que parece, essa cena será a marca d’água, a réstia de gozo que, posteriormente, fará a borda desse amor louco e carregado de erotismo. Uma cena cujos efeitos de saber ultrapassam o que o sujeito, efetivamente, vê. Provavelmente, uma antecipação imaginária do traço de gozo.
Posteriormente Joyce irá eternizar essa data no seu romance Ulisses, considerado por muitos, o maior romance do século XX. De algum modo, Ulisses preambula aquilo que viria a ser a mais vertiginosa aventura com a palavra, ou seja, Finnegans Wake. Uma operação de carpintaria literária que se erige no delicado cálculo de um caos milimétrico. Essas duas aventuras de escrita são suficientes para alçar Joyce ao panteão dos grandes escritores da humanidade.
Ulisses foi escrito numa perspectiva de paródia à Odisseia de Homero. Aqui um protagonista adornado de qualidades incorruptíveis, uma mulher fiel e, entre eles, um amor sublime.
Na desconstrução operada por Joyce em Ulisses, temos um herói demasiadamente humano, alforriado dos códigos épicos, vivendo na angústia de um amor sem garantias, no laço com uma fêmea evadida das contrições morais e fálicas. Uma mulher não orientada pela recusa, que sempre diz sim… Penélope às avessas, autorizada de si, consagrada à carne, ao prazer, ao excesso e ao gozo.
Personagens prosaicos, Leopold Bloom e Molly Bloom, escrevem um amor absolutamente profano, viável e sem o peso das sublimidades do ideal social.
Joyce em seu Ulisses, consumiu mil páginas para trazer ao lume um dia apenas, de um homem comum, desestabilizado pelas dores do amor, palmilhando a borda do abismo que é o enfrentamento do feminino.
16 de junho, é o dia do amor: Bloomsday.