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Cartel — Cidadania Lacaniana

— Transmissão SLO / 8 de junho de 2021 —

Ary Farias
  EBP/AMP

Abordar a temática do cartel, aquilo que Lacan forjou para ser um dos dispositivos na construção do saber e formação do psicanalista na sua Escola, continua a ser sempre um desafio. Para além do desafio teórico em si, o desafio de manter uma vivacidade na abordagem do tema sem que isso se transforme num prestígio irrestrito à repetição, num mero repisar teórico.

CARTEL – Cidadania Lacaniana

Ao fundar sua Escola, logo na proposição, Lacan se imbuiu da tarefa de restaurar a sega cortante da psicanálise, convencido dos desvios que se implantavam no seio da prática analítica. Erigiu, portanto, sua Escola sobre o fundo da denúncia e da lúcida oposição ao que se efetivou como sendo uma Sociedade, uma Associação de Psicanalistas.

Ao propor uma Escola em oposição à Sociedade, Lacan altera o núcleo gravitacional do constructo analítico retomando a importância simbólica e o fundamento do significante na experiência com o inconsciente. Ele reordena, portanto, as premissas singulares do método inaugurado por Freud, enfatizando, sobretudo, seu caráter de oposição crítica aos outros discursos, bem como se oferecer como uma possibilidade de leitura crítica e esclarecida aos fatos do mundo e seu difuso mal-estar.

Num gesto de ruptura política e heresia institucional, Lacan recobra a ética da psicanálise e a lógica do inconsciente; ainda num ato de ironia precisa e eficaz, ele inverte a hierarquia preconizada pelo magister e sustenta que a produção de um saber de base deveria suplantar a prática da transmissão verticalizada. Inocula com isso, no postulante à psicanálise, um novo modo de desejo de saber, um produto, fruto de uma artesania conceitual e não simplesmente um objeto resultado de uma aquisição, um escambo puro e simples de transmissão teórica.

Nessa reversão, Lacan, em sua Escola, destitui o analista como agente autorizado da psicanálise (Didata) para instituí-lo, sobretudo como uma consequência lógica da operação analítica, onde tomará o lugar de analisante. A prevalência do analisante sustenta, portanto, essa lógica de tê-lo (o analista) como alguém advindo como um produto do que justamente propõe, qual seja, uma experiência analítica levada a termo.

Se partirmos do pressuposto de que Freud, ao fundar uma Sociedade para abrigar a sua psicanálise, o fazia no sentido de uma proteção possível para o seu método então recém constituído, como uma defesa aos parâmetros e princípios psicanalíticos, num segundo momento, Lacan funda a sua Escola para corrigir os efeitos de deturpação que logo se verificou na Instituição Freudiana. Sua Escola não só se opõe e corrige, mas sobretudo restabelece o legado freudiano.

Lacan, ao propor a dispensa das beatitudes (não sem um corrosivo sarcasmo), sugere uma outra práxis na formação do analista e na sustentação da experiência com o inconsciente, agora não mais ancorada em efeitos identificatórios; ao contrário, repercussões destituintes são esperadas.

A formação do analista perpassaria um longo processo de desautorização egoica/narcísica para poder operar a partir da inauguração de um lugar (autorizado de si), um lugar vazio, um sítio ético. Em Lacan, o analista perde ambição de status para se admitir como lugar suposto e futuro destino de rebotalho.

Se pensarmos que a proposição da Escola de Lacan se erige num ambiente de confrontação à Associação de Psicanalistas, naturalmente que Lacan operava a partir do lugar de dissidente. A história nos conta: quem se desencaminha com os dissidentes geralmente são os exilados, os apátridas. No que tange à realidade analítica, trata-se então daqueles que sustentam uma transferência de trabalho com as proposições de Lacan. Assim sendo, o elo gregário inaugural da Escola de Lacan se deu a partir de sujeitos aproximados por um ponto de exílio, de degredo: os voluntariamente despaternalizados da IPA, os verdadeiramente transferidos com Lacan e aqueles com estofo crítico e autonomia intelectual suficientes para, naquele momento, admitirem a clareza original e a pertinência do ensino de Lacan.

Retomei esses breves fragmentos da história da psicanálise para, nessa pequena clareira, fazer aparecer o cartel como um “paradigma singular”, um dispositivo imprescindível no processo de formação contínua do analista na Escola fundada por Lacan.

O cartel é uma resposta, um dispositivo que recusa a figura do Mestre e todo seu cabedal de prescrições de uma psicanálise de pasteurização do eu, uma prática desvirtuada pela lógica egoica dos pós-freudianos – nesse sentido, um desvio dos parâmetros da clínica inaugurada por Freud.

O cartel é um modo gregário dos pequenos grupos próprios à psicanálise, sustentado a partir de uma evidência transferencial a Lacan e seu ensino.

Herético, esse pequeno grupo de quatro + um (de uma matemática propriamente lacaniana que não produz cinco) irá acolher as dessemelhanças que se igualam no interesse pelo inconsciente, na transferência, na vontade de saber e na disposição de produzir algo com e para além do seu sintoma. O eixo de sustentação gregária desse pequeno grupo se dá em torno da tarefa e não da corroboração das identificações pessoais. O cartel é um arranjo que equilibra as solidões colaborativas em torno do fazer analítico.

É um grupo não natural informado das mazelas, dos equívocos, das patologias e das trapaças inerentes a essa aglomeração calculada entre os falantes.

Isso posto, pode-se ambicionar uma rotina grupal em que a tarefa seja prevalente às simpatias e ao conforto infértil das identificações plasmadas. A efetivação dessa prevalência sustenta e corrobora a premissa lacaniana de que fundou sua Escola para a Psicanálise e não para os psicanalistas. A Escola, nesse sentido, é um empreendimento libidinal para sustentar a Psicanálise, sobretudo como um discurso de crítica assídua à civilização, um refúgio aos discursos do capitalismo, da religião e da ciência, que prescrevem perspectivas alienantes, totalitárias…

A rotina de um cartel implica o esforço constante do cartelizante de estar à altura da psicanálise, de que possa deter em si a capacidade elementar de ler e interpretar criticamente seus dias atuais, a sua época. Nesse ponto, talvez pudéssemos pensar o cartel como um dispositivo que favoreça os efeitos de singularidade e, por consequência, capacite o sujeito a uma construção ética e argumentativa que lhe autorize alguma consistência subjetiva nos atos de protesto ao mal-estar da cultura. O inconsciente é a política; portanto, o Outro ainda é um campo de embate vital do sujeito na afirmação da sua subjetividade: singularidade composta.

O cartel é o ambiente próprio da Escola onde se agita a falta de saber. Um lugar de fagia conceitual, de encontro de ideias e de ensaios conceituais. Um laboratório de proposições, não reativo às crônicas antagônicas que ensejam o pensar. Pensar criticamente que, nesse caso, é sobretudo erigir um delicado sistema de dúvidas, um martelar de ideias discretamente iconoclastas. É se posicionar subjetivamente contra o gozo insosso do lugar comum, da impotência da vontade e da debilidade mental. Em psicanálise, o pensador se exerce no contrafluxo da opinião pública. Ele se posiciona na dispensa das pedagogias que visam à terapêutica do inconsciente e ao apagamento da palavra.

Lacan advertia sobre a douta ignorância, o traço calculado do analista. Mas é preciso admitir que para alcançar a condição de douta, o não saber precisa ser submetido a uma profunda exposição às luzes do conhecimento, uma extração da banalidade crassa e primária de cada um. Douta justamente por evidenciar certa erudição sobre o insabido.  

O melhor lugar onde poderia ocorrer essa depuração do não-sabido seria justamente dentro de uma experiência analítica. Nesse processo, é possível, seguindo Miller, alcançar uma certa articulação, “uma ordenação dos significantes-mestres, do amontoado, do enxame, da constelação dos significantes-mestres que determinam o destino de um sujeito”. Tudo isso será melhor viabilizado se encontrar um sujeito que nutra em si certa ambição intelectual, que queira “construções” com seu inconsciente para além da crônica do sintoma e sua repetição.

No cartel, de algum modo, estamos sempre envolvidos com a questão do que é ser um analista. Essa questão, estruturalmente esquiva a uma resposta cabal, constitui, por si só, o que podemos chamar de formação do analista. É uma questão que se relança, orbital, irresoluta e necessária. 

Numa aproximação do cartel com o Passe, podemos inferir que mesmo para quem já tenha alcançado um regimento satisfatório do próprio gozo, esse saber efetivamente não se cristaliza em um talento subjetivo, não produz o enlevo epifânico típico das grandes revelações. Atravessar a fantasia, alcançar alguma regência sobre o gozo próprio (ou o que quer que se derive desse percurso), me parece, sempre resulta numa síntese simples, numa contração pragmática e ao mesmo tempo mágica. O analisado é um pedestre esclarecido de si, por isso pode caminhar sem as pesadas bagagens dos guardados metafísicos e dos contratos de eternidade.

Se o Passe supõe o acesso a uma resposta acerca do que é um analista, o cartel, por sua vez, discorre sobre o que é a formação e o que é a psicanálise. Devemos acrescentar aqui também os outros recursos elementares dessa pesquisa acerca da existência para além da rotina sintomática: a análise pessoal, a supervisão e a exposição deliberada aos textos analíticos. Essas são as instâncias invariantes da formação analítica. Organizar e sustentar esses fazeres no cotidiano de uma existência constitui aquilo que chamamos de causa.

Lacan engendrou o cartel como um dispositivo de dissolução dos homogêneos, um desdém ao genérico, um repúdio ao universal. Por efeito, uma ode à diferença, ao Um em causa.

O depositário e incitador dessas premissas é justamente o elemento que se engendra no sistema como um aditivo, o mais-um, cuja tarefa é adicionar furo e descompletar a série, sem, no entanto, desmantelar o desejo.

O mais-um não é o quinto elemento nessa estrutura, e sim uma excrescência na matemática ordinal. Cabe a ele recolher da força do trabalho no ambiente coletivo aquilo que deve se afirmar como individual. Isolar ao Um seu produto, personalizar sua questão, atribuir e responsabilizar as respostas produzidas a partir desse encontro. De algum modo, podemos pensar que o mais-um é aquele que faz inferências dedutivas do real em jogo.

Advertido do real, o mais-um, um leitor atento dos fatos do cartel, buscará extrair da experiência, enquanto cartelizante, o ponto vivo do que fracassou, colher o que do impasse possa ser digno.

O mais-um promove, então, o difícil júbilo da diferença na afirmação do laço entre os cartelizantes. É um estrangeiro nativo, um ponto de insensatez produtiva, incrustado no seio do quádruplo cartelizante. Deve ser um informante esclarecido acerca do real que não cessa de não se escrever e dos efeitos disruptivos disso na rotina do grupo.

Sem mestria, o mais-um deve ofertar crivos analíticos na leitura dos possíveis fenômenos de grupo que possam se apresentar. Fenômenos que vão desde o simples malogro às maledicências (a política infame dos grupos), até as expressões mais difusas e sutis do mal-estar na cultura.

Sem o equívoco das ambições sublimes, o cartel apresenta-se como um grupo operativo, horizontalizado, constituído na observância e valorização do Um por Um na sustentação de um fazer. Instaura a polifonia no Uno da Escola.

O mais-um deve interferir para evitar o efeito de cola entre os cartelizantes, zelar para que as individualidades não submerjam no indistinto quantitativo. Cada um tem que fazer presença com seu nome, sustentando sua questão. Esse expediente adotado pelo mais-um evitará uma mutação desavisada para um funcionamento de grupo de estudos, cujas balizas são bem outras.

Tais idiossincrasias a serem sustentadas no cartel buscam preservar as condições de geração, apropriação e exposição do saber, nos moldes que são necessários à formação do analista, pertinentes ao que um dia Lacan preconizou como um dispositivo de base em sua Escola.

Como órgão de base, o cartel tem por tradição e compromisso questionar a rotina da Escola e colocar à prova seus princípios.

Desatrelado das cláusulas gerais que regem os grupos de trabalho comum, o cartel se institui sobre um limite temporal previamente definido. Com o fim já anunciado no preâmbulo, essa condição tem por efeito implicar seu funcionamento à execução da tarefa em si, propositalmente sem espaço para distensões postergantes e fugas retóricas. A vivacidade do cartel deriva justamente da dispensa do recalque sobre a sua finitude.

Esse rol de particularidades inerentes ao grupo do cartel publica não só o prestígio denotado a este pequeno grupo (porta de entrada na Escola), como, por efeito, também estabelece o nível de dificuldade de execução efetiva do grupo, como tal, dentro desses parâmetros. Um grupo de patas epistêmicas e movimentos políticos.

Diante do exposto, em realidade, é preciso um desprendimento para admitir o fosso que possa existir entre a demanda e o que efetivamente se constrói como resposta. É preciso admitir que nem toda proposição de formação de cartel chega a se constituir como tal. O estabelecimento de um cartel perpassa sobretudo o nível de esclarecimento do mais-um em relação ao seu lugar e à sua função. Deve estar convencido do seu compromisso de estabelecer inferências dedutivas do real no ambiente de labor analítico. Sem se confundir com um Mestre, o mais-um deve estar capacitado no entendimento pleno da genealogia do cartel como célula de formação na Escola de Lacan. A ausência desse tino psicanalítico redundará, tão só, em um grupo de estudos. No máximo, um grupo de estudos com a grife Lacan.

Cabe lembrar, nenhum desvalor aos grupos de estudo. Constitui um problema e, portanto, exige um posicionamento, apenas quando quer se anunciar por cartel. Se essa for a realidade em curso, presumimos então o fracasso do mais-um.

Naturalmente que não se deve atribuir ao mais-um toda causa do naufrágio de um cartel. Em verdade, qualquer um dos cartelizantes reserva em si um ponto estrutural na sustentação desse sistema. Desse modo, se houver desistência de um elemento, rui tudo o que se edificou. Essa é uma característica elementar desse grupo.

Por se tratar de um dispositivo “orgânico”, o cartel está plenamente sujeito às contingências vitais. É um grupo com plasticidade para absorver alterações e rearranjos quanto ao tema de origem ou à questão que se apresentou inicialmente para cada um. No entanto, não assimila, não admite alterações de estrutura, aquilo que em algum momento Lacan apontou como sendo uma solidariedade entre a pane e os desvios.

Portanto, essa condição de sensibilidade específica, esse apego às premissas de origem, não devem ser interpretados como pontos de vulnerabilidade. Ao contrário, é preciso extrair daí o compromisso da não concessão dos princípios éticos e epistêmicos que esse dispositivo carrega em seu cerne.

Por fim, talvez pudéssemos pensar o cartel como um ambiente constituído para favorecer a aglomeração ideal para a proposição, experimentação e propagação da lúcida ideia de Lacan, não dissipada da formalização freudiana do inconsciente como um insabido que rege os destinos do sujeito e, por extensão, estabelece as cordas que sustentam e direcionam os fatos e valores da civilização.

Na Escola de Lacan, o cartel deve ser matéria obrigatória na formação daquilo que poderíamos chamar de cidadania lacaniana, ou seja, o inconsciente é a política.