Maio 28, 2025

Era o ano de 2010.
Em suas quatro estações me dediquei a sustentar uma experiência de leitura imersiva na obra de James Joyce. Percorri praticamente toda a sua escrita, desde seu primeiro livro Música de Câmara, quando ainda sua literatura era estruturada na lógica formal, passando por Um retrato do artista quando jovem, suas Cartas a Nora, a paródia vertiginosa que foi Ulisses, até o enfrentamento final da sua literatura onírica que foi Finnegans Wake, seu feito maior, uma biblioteca, a síntese de tudo. Obra que consumiu dezessete anos de insônia literária e, por proposição imodesta do próprio Joyce, ocuparia os acadêmicos pelos próximos duzentos anos.
Tecia-se ali uma ambição desmedida do que podemos sintetizar num feito genial
Onze anos depois, volto novamente à aventura de Finnegans Wake, desta vez num outro paradigma de leitura. Agora o enfrentamento ocorre no modelo de leitura compartilhada e, em voz alta ― uma experiência sonora com a palavra, num texto que não distribui respostas, apenas ressoa, apartado do sentido, mais afeito aos poros do que aos neurônios…
Qual o sentido disso?
Evidentemente que se torna impensável alguém se deparar com Finnegans Wake e nutrir algum interesse por aquilo, que a princípio, se anuncia como um descalabro textual, uma eloquência delirante com a palavra. Por isso, a necessidade de leituras preambulares, leituras contextuais que permitem uma aproximação prévia com o personagem Joyce. Sem isso, torna-se praticamente impossível adentrar nessa língua anoitecida².
Para um analista lacaniano, informado das premências do real, bem como de seus anteparos simbólicos e imaginários, James Joyce, antecipa e/ou corrobora aquilo que Lacan ensinou: o literato chega antes, Freud já havia nos advertido!
No que nos refere, enquanto analistas, a aventura em Finnegans Wake, perfaz uma radicalização da técnica literária tida por fluxo de consciência, o que nos permite poder traçar um paralelo com a associação livre, a prescrição de Freud a seus analisantes.
Ler Finnegans Wake (impossível reler, sempre é a primeira vez), no meu caso, é a busca de um contato com uma escrita ainda não atingida pela lei da atribuição de sentido e necessidade de laço. Uma escrita com valor entrópico, poderíamos dizer. Sem endereçamento imediato ao outro, absolutamente autorreferente e, paradoxalmente, um mergulho na Babel das línguas…
Em suma, adentrar a densa floresta vocabular que é Finnegans Wake é, de algum modo, consentir solapar as certezas e, por efeito, experimentar uma audição sutil, delicada e, desse modo, poder capturar no discurso aquela materialidade fonética inédita, experimentando então a superexuberabundância do universo significante e grafar um novo texto ali, onde a pena jamais pôs o bico…
Finnegans Wake desarruma o mouco e permite a experiência de uma audição ao rés da palavra a quem tem por ofício, buscar os ruídos constitutivos do falasser…
¹ Este texto foi publicado originalmente na Revista Sabiá nº 2 ̶ Revista da Seção Leste-Oeste da Escola Brasileira de Psicanálise.
² Todos os vocábulos ou trechos em itálico indicam citações ou paráfrases.